terça-feira, 17 de novembro de 2015

Do amor aos gatos

Poeminhas nascidos pela manhã do dia 12/11/15. Apenas o último veio de noitinha, enquanto minha querida Amélie acordava.

O gato I - o paradoxo

O homem tem duas pernas
O gato, para andar, usa quatro.
o homem é cheio de alarmes
e o gato, vc já sabe.

- Isso não é um paradoxo?

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O gato II - a criação

Estive imaginando a criação.
E, lá pelo quinto dia, Deus, tão bonitinho, pensou:
Bonito, elegante, inteligente e rápido.
E fez-se o gato.

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O gato III – o sonho

Quando eu vejo um gato dormindo,
eu imagino o seu sonho
cheio de passarinhos.

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O gato IV – o segredo

Quando eu vejo um gato
Eu me apaixono instantaneamente.
E de novo, de novo e de novo.
Esse é um segredo que eu vivo tentando não descobrir.

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O gato V – a fuga

Vou-me embora pra Pasárgada*
Lá eu sou amiga do rei,
Lá eu tenho mil gatos,
Na cama que escolherei.

*Obs. Manuel Bandeira do meu coração, peguei emprestado sua linda fuga, ok?

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O gato VI -  meu sonho

Se um dia eu crescer,
quero ser gato.

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O gato VII – o motivo

Se na casa de um amigo meu,
mora um gato,
eu encontro dois motivos para estar lá.

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O gato VIII – a declaração

Um amor que não se esgota.
A última gota nunca bebida.
Um copo que sempre transborda.

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O gato XI – o nascimento

Abriu meu peito, pela manhã,
a doce unha de um gato.
E, lá de dentro, nasceu amor.

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O gato X – os poemas

Que todas as palavras para os gatos
sejam sempre doces,
quentinhas e queridas.
Como eles merecem.

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O gato XI - o manual

Se um dia eu me desencontrar.
Se distante eu estiver. 
Liguem meu coração ao ronron de um  gato.
E eu acordarei em paz.

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O gato XII– poemas que já li

Um dia, pequena, li um poema:
“Já não sereis tão só e não irás tão sozinha”
Naquele dia, grande, eu entendi.

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O gato XIII - o segredo II

Que ninguém venha me explicar.
É um segredo.
Gatos são fazedores de paz.

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O gato XIV – o iogue

Preste atenção num gato assim que ele acorda.
Antes de comer ou conversar,
ele faz ioga.


[Fer]

segunda-feira, 29 de junho de 2015

Petit

é aconchego, é pelo macio
é cheiro bom,
é ronronar que transborda
e tira mansa lágrima de mim.

é leve passinho,
é miar baixinho,
é brincar de leão, de pique-esconde, de morder sem dó
e dormir de barriguinha pra cima,
(lindo que só...)

Meu Petit me encontrou, assim, petizinho
e eu o trouxe numa caixinha de papelão
e agora, gordinho, gordinho
tem meu carinho, caminha, mantinha e coração.

Meu Petit quentinho
Meu petit-amor
que quando dorme
é filhotinho que 'inda não voou.

[Fernanda]

18/07/2012





quarta-feira, 22 de outubro de 2014

sobre o contentamento

para mim o contentamento está em coisas difíceis de serem feitas:
é preciso muitas árvores, mangueiras altas, de copas volumosas;
é preciso garapeiras quase desnudas de folhas, mas de troncos fortes
duas a três jabuticabeiras sardentas, de olhinhos nascidos no verão
um gramadinho com matinhos altos, onde se escondem os sabiás dos gatos
quando no terreno querem catar bichinhos rasteiros;
e, claramente, serão necessários muitos bichinhos rasteiros para a sorte de passarinhos que compõe o contentamento.
e é preciso se ter uma casinha no meio do contentamento.
e que esta casinha seja feita de barro à moda do joão,
que dentro dela haja sofás de tecido macio pra deitar
e que na janela baixa do quarto, não se tenha perigo de sentar.
é preciso também que gatos e cachorros tenham acesso à casinha: de dia ou de noite,
pois são parte da família.
e a família compõe parte grande do contentamento,
pois, nele, é preciso também esquisitices da natureza humana.
para mim o contentamento está em coisas difíceis de serem feitas:
pois não conheço quem saiba construir árvores, gatos e passarinhos e nem as frutas das árvores.
por isso, penso eu, ser o contentamento a parte que nos cabe deixar crescer.

eu aprecio todos os dias o crescimento do meu espaço de contentamento no mundo,
e, por não saber fazê-lo, admiro Deus e tiro fotos.

[Fernanda]




















* Obrigada meu querido Manoel de Barros pela inspiração de "para compor um tratado sobre passarinhos(...)". Manoel de Barros, que também é parte grande do meu contentamento.
** Na foto, Petit, o campo e o lírio. 



segunda-feira, 20 de outubro de 2014

Le fabuleux destin



Fernanda gosta de cheiro de café, pão e manteiga as cinco da tarde
e gosta do tímido som de gato pulando sobre a cama de madrugada.

Ela não gosta de andar descalça em chão gelado, molhado ou grudentinho
e também odeia pés ressecados nas meias.

[Fernanda]


PS.: Amelie gosta: de ir ao cinema e olhar para trás no escuro para observar o rosto dos outros; procurar detalhes nos filmes que ninguém vê; enfiar a mão bem fundo no saco de cereais; quebrar a casquinha do creme brulée com uma colher e jogar pedras no canal Saint Martin.
Amelie não gosta: de quando os motoristas dos filmes não olham para a estrada.

[o fabuloso destino de Amelie Poulain]


segunda-feira, 14 de abril de 2014

olho de bicho

vê se pode, meu Deus do céu
tanta beleza em dois pontinhos só:
olho de gato
olho de cachorro
olho de cutia
olho de curió.

vê se pode, meu Deus do céu
tanto amor em dois pontinhos apenas:
olho de preguiça,
olho de camelo
olho de vaca
olho de siriema.

vê se pode, meu Deus do céu
tanta ligeireza em dois pontinhos nus:
olho de macaco,
olho de abelha,
olho de porquinho
olho de avestruz.

é que olho de bicho é olho de bicho
não há o que explicar.
de pertinho a gente se perde
na razão que não há.

[Fer]

três canções

moço dos olhinhos redondinhos
feito de passarinho
que também sabe cantar

faz para mim uma canção
bem lentinha pra juntar
eu você embaladinho
dois para cá, dois para lá

faz pra mim uma canção
bem baixinha pra dormir
eu você embrulhadinho
em duas notas de si.

faz pra mim uma canção
bem morosa pra acordar
eu você - dois bocejinhos
e dois acordes de lá.

[Fer]

morosa

e  s'eu disser que gosto de dormir
só por causa do quentinho
e do carinho
e do embrulhadinho
e do sosseguinho
e do escurinho?

[Fer]














sexta-feira, 11 de abril de 2014















"Ás vezes eu só quero descansar
Desacreditar no espelho
Ver o sol se pôr vermelho
Acho graça

Que isso sempre foi assim
Mas você me chama pro mundo
E me faz sair do fundo de onde eu tô
De novo".

(...)

Trecho da Música "Vermelho" do Marcelo Camelo
Imagem do DVD Mormaço (Marcelo Camelo)

segunda-feira, 7 de outubro de 2013

"A ciência pode classificar e nomear os órgãos de um sabiá
mas não pode medir seus encantos.
A ciência não pode calcular quantos cavalos de força existem
nos encantos de um sabiá.
Quem acumula muita informação perde o condão de
adivinhar: divinare.
Os sabiás divinam"


[Manoel de Barros]

quarta-feira, 21 de agosto de 2013

saudade

quando faz tempo e a gente suspira.

[Fer]

terça-feira, 20 de agosto de 2013

sobre o contraditório

É difícil demais se esconder quando se é pequeno.
Em um ser pequeno tudo demais aparece.
O cansaço aparece.
O nariz aparece.
Tudo aparece.
O passarinho quando pia no ninho, mesmo que um piozinho, aparece.
E, se a mãe não vigia, o gavião também aparece.
É difícil demais se esconder quando se é pequeno.
O coração quando bate, sacode a blusa no peito.
E todo mundo vê.
E todo mundo sabe.
Porque é difícil demais se esconder quando se é pequeno.

[Fer]




domingo, 30 de junho de 2013

domingo


quando eu era criança certas palavras apareciam na minha cabeça como uma figura.
devo explicar que essas palavras não tinham objeto na vida real.
não era casa, sofá ou saia, entende?
era, por exemplo, sábado.
a que eu mais me recordo e que faz sentido até hoje (na minha cabeça).
sábado era uma bola preta bem escura.
eu não sei porquê.
os outros dias da semana apareciam como as próprias palavras escritas no ar.
mas tinha impressão que a terça era magra e que a quarta era gorda.
também não sei porquê.
mas, de fato, sábado ainda é uma bola preta, bem escura.

então, hoje, é domingo e a cara dele é bem misturada.
eu não gosto.
além de cara, domingo tem som: uma mistura da voz do faustão, com a chamada do fantástico e ônibus saindo da rodoviária.
eu não gosto.
vou tentar reprogramar minha mente para o domingo de hoje:
garoa e lasanha.
quentinho e poesia.
bem melhor.

[Fernanda]

sexta-feira, 28 de junho de 2013

e não há dúvida de que as palavras são os melhores presentes...



          Entalo poético (feito por Jéss, minha amiga flor)

Sentimentos imbuídos entalaram de palavras a moça... Eu poderia dizer que eles entalavam a moça de palavras, isso também faz sentido.
Ela tossia, tossia, e nada, até chegou a tomar um chá da vovó, mas as palavras na garganta da moça ficavam se empurrando e se ajeitando em várias filas, confusas em saber qual sairia dela primeiro. Deveriam talvez ser as palavras com gosto de trabalho café, mas as de chocolate com os amigos teimavam em sair primeiro, só por serem mais doces e alegres achavam que ficariam sempre mais bonitas em uma poesia, mas as palavras de café sem açúcar diziam que “não,  vida não é feita só de doces, ela precisa falar das coisas amargas para desengasgar” e as palavras de tamarindo concordavam ouriçadas e altivas, pois os azedos estavam desejosos em sair lá de dentro e serem misturadas à doce essência daquela moça para moldarem-se em uma rima poética.
Eis que o sol despontou mais uma vez no mar, e como toda a passarada acorda festejante de raios amarelos, o sanhassu morador do coração da moça não foi diferente, sacudiu suas peninhas azuis acinzentadas e pôs- se a cantar e bicar palavras. As apavoradas palavras não discutiram mais nada e misturancorrendo, doce com amargo e amargo com azedo e cítrico com açucarado saíram depressinha do coração da moça até suas mãos delicadas.
Assim nasceu no dia um prato de palavras bem casadas. Viva os noivos! Viva o padrinho sanhassu rei da passarada!

Jéss.