domingo, 11 de abril de 2010

eu, o vagalume e a gaita.

ela foi minha companheira durante a noite.
ela e ele.
eu puxava o ar de dentro dela
e deixava livre todos os meus suspiros.
e o que era saudade, amor,
ela transformava, decodificava naquele solitário som que invadia o quarto escuro.
ele, meu companheiro de sempre: o vagalume do meu quarto, do quarto do meu irmão, da cozinha;
ele sempre lá.
e agora, ele fluorescia mais ao som de minha nova companheira não imaginária.
estávamos os três, tão unidos em algo invisível, tão amantes e queridos que,
novamente, eu acendi a luz, peguei minha máquina de escrever,
bebi o café com espuma de minha mãe
e vim aqui deixar a febre do dia.
um dia de amizade: eu, o vagalume e a gaita.
[Fernanda]

quarta-feira, 31 de março de 2010

Um soneto, Chico?

" Por que me descobriste no abandono
Com que tortura me arrancaste um beijo
Por que me incendiaste de desejo
Quando eu estava bem, morta de sono

Com que mentira abriste meu segredo
De que romance antigo me roubaste
Com que raio de luz me iluminaste
Quando eu estava bem, morta de medo

Por que não me deixaste adormecida
E me indicaste o mar, com que navio
E me deixaste só, com que saída

Por que desceste ao meu porão sombrio
Com que direito me ensinaste a vida
Quando eu estava bem, morta de frio "

[Soneto, Chico Buarque]

terça-feira, 9 de março de 2010

um sonho bom



havia um sonho nela quando menina.
durante as tardes, sozinha com a mãe,
sentada no chão, ela pensava:
é subir no sofá, bater os braços bem rapidinho mesmo
e voar.
nada daquela coisa de capas e super heróis.
fernandinha acreditava mesmo nos passarinhos.
e se depressa se encontrava no chão,
ela voltava:
sofá, pular, bater os braços rapidinho
sofá, pular, bater os braços rapidinho
sofá, pular, bater os braços rapidinho
(...)
e me vem o riso lembrando dela dizendo à mãe:
tem que bater o braço mais rapidinho pra voar que nem passarinho.

[Fernanda]

domingo, 28 de fevereiro de 2010

um pensamento pela manhã


então, os passos dele são reconhecidos por mim desde a hora que a porta abre, mesmo sendo uma porta de vários.
e, num instante súbito de vários pensamentos encontrados, eu sinto falta, amor, dor, sede...invadindo-me todos estes até que aquele som ritmado cesse à altura de minha sombra e curva teu corpo sobre o meu e beija-me os ombros.
e, num instante súbito de vários pensamentos encontrados, eu me sinto sua, irremediavelmente sua, indivisivelmente sua.
[Fernanda - 24/02/2010]
*no desenho, Mallu e Camelo.


sábado, 19 de dezembro de 2009

nota pessoal

subi no ônibus com todo o peso de costume. encontrado o lugar, pensei que, na vida, seria bom que também tivéssemos um número.

[Fernanda]

domingo, 6 de dezembro de 2009

debaixo de céus blues













Pobre menininha dos olhos rasgados pousados no céu
Tem um blues zunido de abelha,
uma gaita imaginária e
uma lágrima de luz que toca sua orelha

Um assobio lá longe que te acompanha
Num tom de sabiá da cor da laranjeira
A paz do tamanho do céu inteiro

Há flores do campo em suas mãos
Colhidas por ele.
ela tem cheiro de baunilha gravado no travesseiro.

Pobre menininha dos olhos rasgados pousados no céu,
que as mãos no teu peito agarra a vontade,
que a voz sem jeito canta saudade
lembrando vinicius, seu poeta, sua metade.

[Fernanda]

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

canção dos namoradinhos

quando ela pulou de dentro daquele foguete
que a levava só Deus sabe onde
ela caiu direto na cama dela
e seu namoradinho tocava leoni.

a voz dele era rouca e o sono dela pesado
ela disse ainda duas palavrinhas
antes de boa noite, namorado.

do meio do sono, ela acordou de repente
estava delirante, eu acho
mas ele disse fica comigo pra sempre

ela que sempre fala dormindo
disse que precisava ir embora
se arrastando devagarzinho
se armou de duas sacolas

ele a puxou pelo braço
ela bocejou mais um pouquinho
qual foi o sonho, pequena?

Acho que eu era um passarinho.

ele riu pra dentro e deu-lhe um beijinho
então volta, pequena
volta pro ninho...


[Fernanda]

terça-feira, 29 de setembro de 2009

. Rafa e ela .

mas os ninhos são assim mesmo -
protegidos do céu, protegidos da terra, cercados de asas
lugar dentro-fora do mundo,
que nem Rafa e ela sorrindo voltando pra casa.

[Fernanda]

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

joaninha


eu vi uma na rua
e ela tinha um trevo na mão
tão linda, tão pura, a joaninha.
que pensei se a tirava daquele mundo ou não.

[Fernanda]

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

hoje, pela simplicidade do amor...


Os nomes da amada


Alô, minha rosácea
minha flor de lótus,
minha rainha dos jardins suspensos
de Alexandria,
meu raio de sol da madrugada,
meu nenúfar em lago de ternura,
alô, meu bem, minha coisinha louca!

É assim que de manhã ou tarde-noite
eu costumo chamá-la. E a cada nome novo
ela sorri e diz que está guardando
na agenda ou no caderninho da memória
esses doces epítetos de amor.

Sou poeta (serei?) e tenho obrigação
de inventar novas formas de carinho,
mas, por mais que invente, nunca inventarei
a forma ideal de dizer que a amo
tanto tanto tanto tanto tanto tanto
que não cabe nas palavras nem nos lábios.

[Carlos Drummond de Andrade]

domingo, 16 de agosto de 2009

um retrato pra vida inteira

vai que se esbarram na livraria?
ele precisaria de duas boas frases pra um diálogo inicial.
então, ela sorriria, achando que tava sorrindo, mas ninguém repararia.

só ele.

ele sorriria, achando que tava sorrindo, mas ninguém repararia.

só ela.

os dois abaixariam a cabeça, rindo muito pra dentro e feliz pra caramba.
um encontro perfeito, sem vozes, muita saudade, e um retrato pra vida inteira.

[Fernanda]

sexta-feira, 14 de agosto de 2009


acho que isso é coisa que se prova, menina.
uma lasca de bolo que se arranca e corre
e, tendo ele nas mãos, já não sabe se leva à boca.
o coração deliciado pelo roubo
parece antever o gosto.
gosto eterno no final da língua.
é gosto de abandono, menina.

[Fernanda]

quinta-feira, 6 de agosto de 2009















Talvez quisesse achá-lo tanto.
O que faria com aquilo? - da minha maneira sutil e devargazinho, quase rindo, eu perguntei a ela.
- Eu botaria no cabelo, sairia com ele na rua e diria que ele ainda tem meus olhos preferidos.

[Fernanda]

sábado, 1 de agosto de 2009

minha cara



Quando a vi, soube, por instinto, que gostava dela.
Ela não sabia, mas seria minha melhor amiga.
A amiga que eu escolhi para minha alma ou
Que minha alma escolheu para amiga.

Ela não sabia, mas seríamos cúmplices,
Como vento e folhas são.
Como sol para os pingos de chuva que se colorem.
Como borboletas e flores são.

Ela não sabia, mas seríamos irmãs,
Almas irmãs e opostas,
Salvas de seus futuros golpes.

Ela não sabia, mas tudo que fosse bom seria duplicado:
Descobrir um poema,
O primeiro beijo, o primeiro namorado.

Ela não sabia, mas tudo que fosse ruim seria dividido:
As crises, as dores,
O coração partido.

Sexta série. Doze anos.
Ela não sabia. Eu não sabia.
Flor de lótus, minha cara, extensão minha,
Meu mundo, sem dúvida, é melhor desde aquele dia.


[Fernanda]